domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ecossustentabilidade e aproveitamento integral de alimentos

Nos dias atuais é impossível não associar a ciência da nutrição com as questões do meio ambiente, especificamente a ecossustentabilidade.
Esta consiste em uma ação de suprir nossas necessidades, no presente, com o uso racional (sem desperdícios) dos recursos naturais, para que eles não se esgotem. Os projetos que visam à sustentabilidade precisam ter ao menos quatro requisitos básicos: ser ecologicamente corretos, economicamente viáveis, socialmente justos e culturalmente diversos (REIGOTA, 2007).
O nosso país é extremamente contraditório, pois é o 4º maior produtor mundial de alimentos e um dos que mais desperdiça; é o que produz 25,7% a mais do que necessitaria; é onde cerca de 57 mil crianças menores de um ano morrem anualmente em decorrência de desnutrição e onde 9% da população tem subnutrição, contrapondo-se aos elevados índices de impostos e milhões de miseráveis, cerca de 23% da população, com renda inferior a prover 75% de suas necessidades calóricas (GOULART, 2008; PRATO VAZIO, 2010; RAZA, 2011).
Neste âmbito conhecer o conceito de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) é iniciar a compreensão de um problema de saúde pública que atinge a todas as classes sociais: o desperdício dos alimentos. SAN é a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente, com base em práticas alimentares saudáveis (CONSEA, 2004). A insegurança alimentar, de acordo com a Food and Agricultural Organization (FAO), é caracterizada como "problemas que impedem, uma parte significativa da população, ter acesso a alimentos disponíveis, o que constitui um obstáculo para romper o círculo da pobreza, que é transmitido de geração para geração" (VALENTE, 2002).
Para nós, profissionais da área de saúde pública, seria um sonho acreditar que do desperdício dos alimentos no futuro teríamos reciclagem, compostagem, resultando em adubo, energia elétrica e aproveitamento integral de alimentos, oferecendo alimentação com combate ao desperdício.  
A cadeia de desperdício de alimentos começa na colheita e termina na cozinha das donas de casa: 10% colheita, 50% manuseio e transporte, 20% centrais de abastecimento, supermercados, sacolões, 20% processamento culinário e hábitos alimentares e nos restaurantes comerciais temos um desperdício de 15%, nas residências 20 % do total comprado e preparado (PRATO VAZIO, 2010; RAZA, 2011).
Segundo a antropóloga Margaret Mead “É mais fácil mudar a crença religiosa ou ideologia política de um povo do que seus hábitos alimentares” (TEICHMANN, 2007).
De todos os alimentos desperdiçados os líderes são hortaliças e frutas, sendo o 1º tomate, 2º banana, 3º morango/melancia, 4º couve-flor/alface (PRATO VAZIO, 2010; RAZA, 2011).
Como sugestões para acabarmos com esta situação de insegurança alimentar e deste grave problema de saúde pública, devemos aliar educação, esclarecimentos, informações e conscientização.
Segundo Boog (2006) “a alimentação, prática cotidiana das mais simples, é um tema que pode ser analisado por intermédio de saberes de várias áreas do conhecimento, sendo referido na literatura como um tema agregativo e integrador. Ocupa posição estratégica no sistema de vida e de valores das sociedades, sendo definido como fato social total e que a alimentação humana é uma questão complexa, multidimensional e pertinente aos campos biológico, psíquico, social, afetivo e racional”.
O aproveitamento integral dos alimentos é a utilização completa do alimento sem preparo ou sua submissão à energia térmica quente. Nos domicílios há um aproveitamento insuficiente do potencial nutritivo dos alimentos com inadequação na compra/seleção, pré e preparos, armazenamento e cultura/hábitos, o que pode ocasionar a Fome Oculta: carência de um ou mais micronutrientes com comprometimento das várias etapas do processo metabólico como alterações no sistema imune, nas defesas antioxidantes e no desenvolvimento físico e mental.
A Fome oculta é o problema nutricional mais prevalente no mundo. Suas causas são micronutrientes pouco disponíveis na natureza, falhas no consumo, falhas no padrão de utilização biológica dos alimentos, aumento nas demandas nutricionais, situações patológicas instaladas, restrições alimentares, desinformação sobre hábitos alimentares saudáveis e exclusão ou baixo consumo de alimentos-fontes (preferências, crenças e costumes regionais) (RAMALHO, 2009).
O consumo de talos, cascas, ramas, sementes e folhas deve sempre ser orientado quando possível, pois estudos demonstram que alguns nutrientes são mais predominantes nas partes não comumente consumidas pelos brasileiros (SESI, 2008).

Gláucia Cristina Conzo
Nutricionista do SESI – Serviço Social da Indústria
Pós graduanda em Educação
Pós graduanda em Segurança Nutricional e Qualidade dos alimentos
Especialista em Saúde Coletiva pela ASBRAN
Aperfeiçoamento em Geriatria pela UNIFESP


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOOG, M. C. F. Doação de alimentos como ação emergencial de combate à fome – subsídios aos COMSEAS Segurança Alimentar e Nutricional, Campinas, v.13, n.1, p.78-84, 2006.
CONSELHO NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL. Princípios e diretrizes de uma política de segurança alimentar e nutricional. Brasília: CONSEA; 2004.
SESI. Ecossustentabilidade. Disponível em: www.sesipr.org.br. Acesso em: 20 de janeiro de 2012.
GOULART, R. M. M. Desperdício de alimentos: um problema de saúde pública. Integração jul/ago/set ano XIV, n° 54, p. 285-288, 2008.
PRATO VAZIO. 2010. O desperdício brasileiro em números. Disponível em: http://pratovazio.wesnode.com.br. Acesso em: 20 de janeiro de 2012.
RAMALHO, A. Fome Oculta Diagnóstico, tratamento e prevenção. São Paulo: Editora Atheneu, 1ª ed., 2009.
RAZA, C. 2011. O desperdício brasileiro: uma cultura a ser modificada e uma responsabilidade de todos. Disponível em: www.administadores.com.br. Acesso em: 20 de janeiro de 2012.
REIGOTA, M. A. do S. Ciência e sustentabilidade: a construção da educação ambiental Revista da avaliação da educação superior v. 12, n. 2, jun. 2007.
SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA (SESI) Programa Alimente-se Bem: Tabela de composição química das partes não convencionais dos alimentos. São Paulo: Editora SESI SP, 1ª ed., 2008.
TEICHMANN, I. M. Cardápios: técnicas e criatividade. Caxias do Sul: Editora EDUCS, 6ª ed., 2007.
VALENTE, F. L. S. Direito humano à alimentação: desafios e conquistas. São Paulo: Cortez Editora, 1ª ed., 2002.



0 comentários:

Postar um comentário